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Archive for dezembro \04\UTC 2011

Foto: Iara.

O despertar no Natal

Estimado Amigo,

Senti imensa alegria ao receber, após tantos anos, notícias suas e de todos os seus. Foi bom relembrar os tempos ditosos da infância, aos quais retornei em pensamento, ao ler a sua carta.

Em face de tua estranheza diante da nova vida que agora vivencio, tracei breve resumo da feliz transformação que me ocorreu. São verdades do meu coração que tento transcrever abaixo:

Eu, que sempre tive tudo e em abundância, nunca me detive a olhar o sofrimento existente no mundo. Estivera, outrora, sempre ocupado com ocasiões sociais, festas ruidosas, procura de trajes e mais trajes, que nunca anteriormente tivera noção ou qualquer preocupação, senão comigo mesmo.

A vida, no meu entender, na época, era para ser vivida na sua totalidade com frivolidades e prazeres.

Assim fui vivendo, esquecido do meu compromisso comigo mesmo de progredir interiormente e com Deus, de ser útil aos meus semelhantes.

A inconseqüência traz efeitos funestos para o futuro e assim eu me vi em determinada época só, os meus entes queridos já haviam partido. Uma inquietação estranha apoderou-se de mim e um vazio passou a me incomodar constantemente.

Os meus recursos financeiros diminuíram consideravelmente e com isso os amigos festivos sumiram quase todos.

Era final de ano e, de repente, num desespero súbito, saí apressado de casa e perambulei pelas ruas querendo fugir de mim mesmo.

Não sei quanto tempo andei, estava distraído com os meus pensamentos angustiosos de solidão, quando me deparei com uma cena inesquecível: sob os pilares de antiga construção percebi vultos que se moviam. Fui averiguar e notei que uma família, pai, mãe e três filhos aí haviam se acomodado buscando abrigo do frio intenso.

Os trajes eram puídos, os rostos magérrimos denotavam sofrimento, privação e preocupação e as crianças choravam de fome.

Fiquei muito chocado, sempre passara ao largo da vida simples e sacrificada da grande maioria. Jamais fixara os olhos em alguém para notar os seus padecimentos e necessidades. Vivia alheio a tudo.

Perguntei-lhes sobre o que acontecera em suas vidas e vim a saber que vieram do campo em busca de uma vida feliz na cidade. Pura ilusão, agora se viam sem nada, na mais absoluta miséria.

Levei-os à minha casa. Havia cômodos no fundo e acomodei-os lá. Providenciei refeição e agasalhos. Agora percebia o quanto eu era abençoado, como tinha recursos e não sabia.

No dia seguinte era véspera de Natal. Planejei, com alegria inusitada, os preparativos para a grande noite. Comprei presentes para as crianças e mandei preparar especial refeição. Convidei-os a compartilhar comigo dessa memorável data e pela primeira vez, há muito tempo, desde a minha infância, senti novamente o encanto da época e o sentido especial da comemoração.

A felicidade dos pequenos em meio aos brinquedos preencheu o meu coração e a conversa simples e verdadeira de seus pais me forneceram direção para o Ano Novo.

Alguns dias após, providenciei condução para levá-los de volta ao lugar de onde partiram, para retomar suas vidas na tranqüilidade e segurança do campo.

Nem preciso dizer da modificação que se operou em minha vida a partir de então.

Busquei trabalho e estabilizei minha existência. Procurei sempre participar de campanhas em prol de uma vida melhor para todos e o vazio do coração se foi. Amizades novas e verdadeiras chegaram a mim e renasci para o mundo e para mim mesmo.

Acordei e passei a viver conscientemente, atribuindo melhor o valor das coisas. Simplifiquei-me e passei a ser feliz.

Assim foi o começo do crescimento deste seu amigo que descobriu na solidariedade e simplicidade, o caminho da felicidade,

Ismael

 Extraído do Livro “Versos em Harmonia” de Bel Zanardo.

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